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Tudo por uma vida: bombeiro mergulha em água de esgoto para salvar uma mulher

Gritos de socorro chamaram a atenção do sargento Renato Neves Motta e seus colegas, enquanto atendiam a uma ocorrência de capotamento na avenida Brasil, no Rio de Janeiro/RJ, na madrugada de 16 de março de 2012. Alertado por militares do quartel da Marinha, em frente ao local do acidente, ele deparou-se com uma senhora se afogando em um poluído canal que leva ao mar. Sem hesitar, o bombeiro do Quartel de Ramos atirou-se à água e, mesmo não sendo um especialista em salvamento aquático, salvou uma vida em condições surpreendentes e impróprias. Exausto e sentindo os sintomas da ingestão de água contaminada, soube que a vítima, agora arrependida, havia tentado o suicídio e que vinha sendo arrastada pela correnteza por 100 metros. Sobre a marcante experiência, o sargento de 32 anos conversou com a Revista Emergência.

Bombeiro salva mulher em água de esgoto

COMO ACONTECEU O SOCORRO?

Recebemos, por volta de meia-noite, um chamado para capotagem de veículo. Lá, nos deparamos com três vítimas com ferimentos leves. Durante o atendimento, ouvimos chamados desesperados vindos do quartel da Marinha, bem em frente ao local do socorro. Parte da guarnição cruzou as pistas para ver o que estava acontecendo. Foi quando cheguei à margem do rio e avistei uma senhora arrastada pela correnteza.

POR QUE DECIDIU PULAR?
A vítima estava com a cabeça submersa e os braços estendidos na água, já tomada pelo cansaço e entregue à própria sorte. Não restou alternativa e me lancei naquela água imunda, nadei até ela e a reboquei com dificuldade até a margem. A guarnição nos auxiliou a sair do rio, segurando o colega cabo Antônio de Oliveira pelos braços. Ele serviu de apoio enquanto providenciavam a escada.

COMO FICOU O ATENDIMENTO INICIAL?

As vítimas já estavam na ambulância. Então, não houve nenhum prejuízo ao socorro. Parte da guarnição correu para a margem do rio e outra permaneceu atendendo a estas vítimas.

O SOCORRO EXIGIU UMA REAÇÃO RÁPIDA?
Conforme a senhora era arrastada, chegava próxima a um canal e, se caísse ali, a perderíamos de
vista. Ela cairia na rede pluvial e dali iria para mar aberto, na Baía de Guanabara. A chance de pular
era naquela hora. Não tive nem três segundos para pensar.

ELA ESTAVA INCONSCIENTE?
Não, mas muito cansada. Quando a abordei, travamos uma verdadeira luta. Na ânsia de se salvar, ela me puxou para baixo em duas oportunidades, o que fez com que eu ingerisse também água contaminada. Quando a retirei, eu vomitei umas quatro vezes e também fui para o hospital. Tomei o medicamento e fiquei alguns dias em alerta.

A ÁGUA INGERIDA ERA MUITO POLUÍDA?
O Inea (Instituto Estadual do Ambiente) coletou água para análise. O índice de balneabilidade, que é a água que o corpo humano pode ter contato, é de até mil coliformes fecais a cada 100 mililitros. Ali, havia 3,3 milhões em cada 100 ml. Era água de esgoto mesmo.

QUAL A PROFUNDIDADE DO RIO?
Deve ter, no mínimo, uns oito metros. É um rio Por Rafael Geyger com seis metros de largura, tanto que tive que pular como se estivesse mergulhando em uma piscina, pois a vítima estava na outra margem. Com o rio em um nível mais baixo, dá para ver pedaços de vergalhões, de madeira e objetos enferrujados.

ESTAVA CONSCIENTE DOS RISCOS?
Na hora, eu não pensei em nada. Só tive o ímpeto de pular e trazer aquela senhora de volta ao seio da sua família, mesmo que para isto custasse a minha vida. Foi isto que eu prometi quando ingressei no CBMERJ. Claro que em sã consciência eu não aconselho ninguém a fazer isto.

TEVE ALGUM MEDO DURANTE A AÇÃO?
O medo faz parte. O bombeiro que não tem medo de nada é irresponsável, mas controlar este medo
é importante, pois ele sempre corre em direção ao perigo, enquanto os outros homens correm em direção contrária. Coragem é isto, a capacidade de fazer algo mesmo quando morre de medo.

O SOCORRO FUGIU DA SUA ESPECIALIDADE?
Fomos chamados para uma capotagem, não para uma tentativa de suicídio. Não estávamos preparados psicologicamente para aquele momento. E outra: sou um bombeiro combatente, não sou um guarda-vidas. Não tenho tanta aptidão em salvamento aquático.

PARA A VÍTIMA, FOI UM MOMENTO DE SORTE?
A sorte dela foi que a gente estava ali no local. Se fosse um dia normal, os militares da Marinha estariam no interior do quartel, ela teria passado despercebida por ali e talvez estivesse desaparecida até hoje e a família sem saber o que aconteceu. Foi Deus que nos colocou ali para atender a um outro socorro.

QUE MARCAS A EXPERIÊNCIA DEIXA?
O socorro me deixou extremamente satisfeito e orgulhoso em pertencer à corporação. Nunca tinha visto um trabalho de equipe tão bem coordenado e executado como este. Vi nos meus dez colegas que atuaram a segurança de quem sabe o que está fazendo.

Fonte: Revista Emergência

 



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